Consulta sem deslocamento: como a telemedicina está redesenhando o acesso à saúde no Brasil

Com mais de 30 milhões de atendimentos remotos por ano e avanço do 5G, a saúde digital deixou de ser tendência e virou infraestrutura

Durante décadas, morar longe de um grande centro significou aceitar uma equação dura: para cada consulta com especialista, horas de estrada, diária perdida de trabalho e, muitas vezes, meses de espera. Essa equação está sendo reescrita. O Brasil já registra mais de 30 milhões de atendimentos médicos remotos por ano, e o Sistema Único de Saúde acumula milhões de teleatendimentos desde 2023, com investimento federal previsto de R$ 150 milhões em telessaúde dentro do novo PAC.

O interior é quem mais ganha

O dado mais revelador do avanço da telemedicina não está nos grandes números nacionais, e sim nas experiências locais. Em um projeto-piloto no interior do Piauí, mais de 900 exames foram realizados a distância conectando pacientes da zona rural a médicos em São Paulo. O resultado: em 70% dos casos, o paciente não precisou se deslocar para outro município em busca de diagnóstico.

Num país com mais de 25 milhões de pessoas vivendo em áreas rurais, esse tipo de resultado muda o significado da palavra acesso. A expansão do 5G, que segundo o Ministério das Comunicações já permite teleconsultas e exames remotos em áreas antes desconectadas, tende a acelerar o movimento nos próximos anos.

Um mercado que amadureceu

O setor também cresceu como atividade econômica. O mercado brasileiro de telemedicina foi avaliado em US$ 1,5 bilhão em 2022 e as projeções indicam que pode superar US$ 6 bilhões até 2030, com crescimento médio anual perto de 20%. O perfil do paciente mudou junto: a teleconsulta deixou de ser substituta de emergência, como foi na pandemia, e virou porta de entrada regular para o cuidado com a saúde, especialmente em especialidades como saúde mental, dermatologia e acompanhamento de doenças crônicas.

Esse amadurecimento abriu espaço para modelos que tratam a saúde digital não como produto isolado, mas como parte de um ecossistema de serviços. É o caso da Revitaly, vertical de telemedicina e televeterinária do ecossistema cooperativo Gfi Hub, que conecta o atendimento de saúde a distância a uma estrutura que já reúne educação financeira, meios de pagamento e consumo no conceito de MEC, o Mercado Econômico Cooperativo. A lógica é simples: se o consumo e os serviços do dia a dia já circulam dentro de uma comunidade organizada, o cuidado com a saúde pode circular pelo mesmo caminho, com mais conveniência e custo acessível.

O desafio que ainda existe

O avanço, porém, não é uniforme. Estimativas do setor apontam que cerca de 23 milhões de brasileiros ainda enfrentam barreiras digitais relevantes, e em regiões como o Nordeste boa parte das unidades básicas de saúde ainda improvisa teleatendimento por aplicativos de mensagem. A telemedicina só cumpre sua promessa quando vem acompanhada de conectividade de qualidade e de educação digital, o que coloca a inclusão no centro da agenda da saúde para os próximos anos.

“Para Odirlei Schuster, presidente da Gfi Hub, ‘tecnologia que não chega na ponta é estatística, não é solução. O valor real aparece quando a pessoa do interior resolve em vinte minutos o que antes custava um dia inteiro de deslocamento.'”

A consolidação da telemedicina no Brasil indica um caminho sem volta: a saúde está se tornando um serviço que vai até a pessoa, e não o contrário. Para quem vive fora dos grandes centros, isso significa algo que nenhuma estatística captura por completo: tempo, dinheiro e dignidade de volta para quem mais precisa deles.
 

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