A sofisticação das fraudes digitais no Brasil tem imposto novos desafios ao setor financeiro, especialmente às fintechs. Em um cenário onde mais de 90% dos golpes têm origem em engenharia social, a resposta das empresas tem sido acelerar o uso de tecnologia e ampliar mecanismos de proteção.
A mudança não é apenas técnica, mas estratégica. O foco deixou de ser apenas bloquear transações suspeitas e passou a incluir a compreensão do comportamento do usuário e a prevenção ativa de riscos.
“Hoje, o maior risco não está no sistema, mas na manipulação do próprio usuário”, afirma Marina Alves, CEO da Brazil Pays. “A engenharia social transformou o cliente no principal vetor de ataque.”
A Brazil Pays atua no mercado de pagamentos transfronteiriços, conectando empresas nos Estados Unidos a consumidores brasileiros. A plataforma permite que o cliente pague em reais, via Pix ou cartão parcelado, enquanto o lojista recebe em dólar, reduzindo barreiras de conversão e ampliando a segurança nas transações internacionais.
Nesse ambiente, a segurança se tornou um elemento central da operação.
“O desafio não é apenas facilitar o pagamento, mas garantir que ele aconteça de forma segura do início ao fim”, explica Marina. “Crescimento sem segurança não se sustenta.”
Entre as principais estratégias adotadas pelo setor está o uso intensivo de inteligência artificial e machine learning. Essas tecnologias permitem analisar grandes volumes de dados em tempo real, identificando padrões suspeitos e interrompendo transações potencialmente fraudulentas antes que sejam concluídas.
Além disso, soluções de biometria e análise comportamental ganham espaço. A autenticação por reconhecimento facial e digital, combinada com o monitoramento da forma como o usuário interage com o dispositivo, ajuda a identificar comportamentos fora do padrão.
“Não analisamos apenas quem é o usuário, mas como ele se comporta”, afirma Marina. “Pequenos desvios podem indicar uma tentativa de fraude.”
Ferramentas como o ContraGolpe, voltadas ao monitoramento de transações suspeitas, e iniciativas regulatórias, reforçam a estrutura de prevenção. O objetivo é impedir, por exemplo, a abertura de contas fraudulentas com dados de terceiros.
Ao mesmo tempo, o avanço das fraudes levou a um aumento na colaboração entre instituições. O compartilhamento de informações sobre golpes não deve ser tratado como vantagem competitiva, mas como uma necessidade para a segurança do sistema financeiro.
“Fraude não é um problema isolado de uma empresa, é um problema sistêmico”, diz Marina. “Ou o mercado atua junto, ou todos ficam vulneráveis.”
No campo operacional, práticas como KYC e KYP se tornaram ainda mais rigorosas, com verificação aprofundada de identidade e análise de parceiros comerciais. Também cresce a preocupação com contas utilizadas para movimentações atípicas, frequentemente associadas à lavagem de dinheiro.
Outro ponto central é a educação do usuário. Campanhas informativas buscam alertar sobre golpes comuns, como o de falsos funcionários, que exploram a confiança e a desinformação.
“Tecnologia sozinha não é o suficiente. O usuário precisa estar preparado para reconhecer tentativas de fraude”, afirma Marina.
O contexto atual indica que o cenário tende a se tornar ainda mais complexo. O uso de deepfakes e outras tecnologias avançadas tem elevado o nível dos ataques, levando a busca de novas medidas regulatórias com foco em inteligência artificial e biometria.
Para Marina Alves, o futuro da segurança no setor financeiro dependerá da capacidade de adaptação. “A fraude evolui rápido. A proteção precisa evoluir mais rápido ainda.”
Diante desse cenário, a combinação entre tecnologia, regulação e conscientização do usuário deve definir os próximos passos das fintechs no Brasil.
